Prática apotropaica
Olhei para o último lugar em que você me mordeu e senti saudades.
Achei mesmo que faltava um pedaço de mim antes de conhecer você, mas não sabia por onde começar a procurar.
Isso me entristeceu.
E você me apareceu.
Eu fiquei triste quando me dei conta de que faltava um pedaço de mim também quando você ia embora
(odeio quando você vai embora).
No minuto seguinte, continuei a pensar.
Perguntei-me se você estaria mordendo alguém neste instante, enquanto escrevo.
Outra perna, outro ombro, outro antebraço... outro coração.
Pensando bem, ainda consigo encontrar suas marcas por toda a cidade, sobretudo onde moro.
Não gosto de virar o rosto, eu sempre admiro sua dentição em cada coluna, cada porta.
Mas as que você fez em mim...
Se eu pudesse cobri-las com tatuagens do tamanho de navios,
se eu pudesse queimá-las com a brasa de Roma e soterrá-las sob jardins de tulipas,
em pés de orquídeas,
em pés de jasmim...
Talvez eu pudesse, finalmente, concebê-la no perdão de passeio que ainda almejo te dar.
Talvez... Talvez, eu seja mesmo um acumulador.
Acumulo marcas, não somente as suas.
Marcas de quem cobra juros sobre paciência,
marcas de gente que trata amores como cães.
Tenho também acumulado cuidado, ultimamente, doses de autopreservação
(uma psicóloga inexperiente, com ar de autoridade, me recomendou).
Ficar longe de você não é mais capricho.
É prática apotropaica.
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