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Já reguei flores ao meio-dia. Já escrevi sobre dor e sobre Deus enquanto esperava em vão por um amor que não veio. Já ignorei paixões muitíssimo promissoras (mas essas, bem ou mal, são relegadas ao ostracismo).
Vez ou outra, dou ouvidos à lembrança de um amor de primavera. Acontece rápido, geralmente enquanto conto carneirinhos.
A descrição que se segue nada mais é que uma tentativa de traduzir o que sinto no instante em que minha mente desatina a divagar: primeiro, um gatilho, uma armadilha cruel de todo dia que desponta, singela e abatida, a beleza das cores terra e azul no meu imaginário. Uma música, uma palavra. Às vezes, basta um miado.
Depois, vêm as memórias servidas como pratos quentes e mornos, uma mesa soberba, tamanho família, para suprir toda a minha fome de atenção, fome de tentação. Doce e terno é o gosto dos morangos, como carinho sobre pelo recém escovado. O cheiro das ervas e da chuva...
Quase sempre, depois de todo esse alvoroço emocional, sobram as sementes e os gracejos de vidas passadas, e a balbúrdia de uma infância comedida na cabeça desregulada de desajustados devaneios (mas não é mesmo desajustado o amor?).
Só então vem a tristeza, um sentimento de não pertencimento, de não querer respirar a vida de uma grama sempre verde.
Outro dia, pensei em uma vaca mimosa enquanto contava os pobres carneirinhos. Muitos contam vacas, mas quase sempre com propósitos comerciais. Minha vaquinha não entendia nada de economia, ruminava uma erva cidreira até o dia em que enjoou do capim e começou a comer flores. O pasto estava lá, mas ela só queria comer flores.
Ao contrário da vaquinha e do pasto, as flores não eram minhas.
As flores eram vizinhas.
As flores eram sozinhas.
Eram flores secas.
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