Perdi um bocado de vida
Outro dia, adivinhem só, passei por outro desses eventos canônicos. Dessa vez, foi o da minha morte.
Disse aos biógrafos que morri aos poucos. Disse aos amigos que morri em desvantagem. Disse aos parentes que ainda estou vivo, muito bem e gozando do melhor que a distância deles pode me proporcionar. Guardei a melhor desculpa, entretanto, ao legista, para quem disse que morri em pedaços: um aqui, outro ali, um que se segura pendente por uma linha de carne, outro que pulsa e se debate, mas logo se aquieta, inerte sobre o carpete.
Refleti a respeito e diria que perdi o primeiro pedaço de vida quando me descobri vendo cacos do cotidiano pelos olhos de outras pessoas. Foi a primeira vez que vi a miséria não compadecida. Foi quando vi todo o desprezo, o quão rigorosamente elas - as pessoas - não se importam, que senti esse vazio vulgar no coração. Foi quando, pela primeira vez, neguei ajuda a quem precisava - foi também quando percebi que eu mesmo não podia mais me ajudar.
Perdi um bocado de vida um tempo depois, quando esqueci o violão na parede e as chaves no balcão. Quando engoli seco cada palavra raspada, cada poema, cada palavrão.
Não sei se morri primeiro para mim ou para os outros. Morro de medo de saber e me tornar uma memória ingrata, morro de medo de me tornar um desses espíritos bagunçados, desses que servem o que têm de melhor numa bandeja de mágoa. (Quem vai querer comer assim, afinal?) Está aí outro jeito eficiente de morrer: "morreu de medo".
"Veja, bom doutor, todos na Terra amargando sal nos cantos da boca, ninguém para cumprir vocação".
Morri de vez na noite em que me deitei com um sentimento pesado de que somos causa perdida. De que sempre será tarde demais. Passada tanta areia, meu pobre fio de prata não aguentou e irrompeu num estralo do mais tímido, muito preocupado em não incomodar os que ficavam.
No epitáfio, tiveram o bom humor de colocar: "Morre mais um que desistiu de viver. Morre em pedaços mais um que preferiu não se juntar".
"Ah, meu bom doutor... Morro de rir".
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