Sob os pés calejados dos pássaros
Nunca presta essa história de avançar madrugada à dentro. É sempre uma prece. Há quem regresse, mas não eu. Eu sigo embrenhado, males rogados, como numa teia viscosa, ou num bronco torcer. Decidi num minuto: chamar-me-ei Toco, e passarei o resto de meus dias sob os pés calejados dos pássaros. Outrora, quisera eu fazer as escolhas pelos nós dos dedos, guiar os cegos pela noite. Outrora, quisera eu governar a Babilônia de muitos deuses, levar à justiça cada soberano inconsequente, cada inseto indolente.
Percebi, entretanto, que não afeto as escolhas dos pássaros. Não impeço o Sol de nascer, nem faço as águas dos rios rolarem morro acima. É muita cretinice essa história de avançar madrugada à dentro. Começamos a pensar que quase tudo é possível, que quase tudo é perverso (mesmo as escolhas dos pássaros). Pensamos que quase tudo é segredo, mesmo o tempo escorrido... ou melhor, decorrido. Deve ter algo a ver com esse gosto metálico na garganta, algo com essa linguagem do amor, convoluta em beldade àqueles que têm um Dragão no céu da boca.
Numa madrugada qualquer, classifiquei como emergencial a ausência de alma no metal corroído que blinda a testa de meus bem-feitores. Numa madrugada qualquer, participei, embora a muito contra gosto, da mineração ativa do Eu em estágios diversos, do brando ao moderado ao concreto (mas, afinal, quem escolhe pelos pássaros?). Nada mais justo, numa madrugada qualquer, estar implantado um risco etéreo de confusão tenaz e ressignificada.
Uma teia perfeita.
Uma ameaça borboleta.
Decretado perpétuo silêncio na faixa de cobre.
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