Postagens

Mostrando postagens de maio, 2024

ddd

Já reguei flores ao meio-dia. Já escrevi sobre dor e sobre Deus enquanto esperava em vão por um amor que não veio. Já ignorei paixões muitíssimo promissoras (mas essas, bem ou mal, são relegadas ao ostracismo). Vez ou outra, dou ouvidos à lembrança de um amor de primavera. Acontece rápido, geralmente enquanto conto carneirinhos. A descrição que se segue nada mais é que uma tentativa de traduzir o que sinto no instante em que minha mente desatina a divagar: primeiro, um gatilho, uma armadilha cruel de todo dia que desponta, singela e abatida, a beleza das cores terra e azul no meu imaginário. Uma música, uma palavra. Às vezes, basta um miado. Depois, vêm as memórias servidas como pratos quentes e mornos, uma mesa soberba, tamanho família, para suprir toda a minha fome de atenção, fome de tentação. Doce e terno é o gosto dos morangos, como carinho sobre pelo recém escovado. O cheiro das ervas e da chuva... Quase sempre, depois de todo esse alvoroço emocional, sobram as sementes e os grac...

Perdi um bocado de vida

Outro dia, adivinhem só, passei por outro desses eventos canônicos. Dessa vez, foi o da minha morte. Disse aos biógrafos que morri aos poucos. Disse aos amigos que morri em desvantagem. Disse aos parentes que ainda estou vivo, muito bem e gozando do melhor que a distância deles pode me proporcionar. Guardei a melhor desculpa, entretanto, ao legista, para quem disse que morri em pedaços: um aqui, outro ali, um que se segura pendente por uma linha de carne, outro que pulsa e se debate, mas logo se aquieta, inerte sobre o carpete.  Refleti a respeito e diria que perdi o primeiro pedaço de vida quando me descobri vendo cacos do cotidiano pelos olhos de outras pessoas. Foi a primeira vez que vi a miséria não compadecida. Foi quando vi todo o desprezo, o quão rigorosamente elas - as pessoas - não se importam, que senti esse vazio vulgar no coração. Foi quando, pela primeira vez, neguei ajuda a quem precisava - foi também quando percebi que eu mesmo não podia mais me ajudar.  Pe...

Brasa que prende

Odeio essa gente que faz a gente parar para pensar.  Fui bem servido de um interrogatório purgante no outro dia, quando resolvi chorar as mazelas do coração para uma menina curiosa, sem pudor. Contei a ela da vez em que me apaixonei por uma ninfa desavisada, dessas que moram em florestas de quebra-cabeças, que passeiam por flores de LEGO.  Só Deus sabe o quanto é difícil traduzir sentimentos em palavras, arrancar verbo das entranhas, mas me esforcei, o máximo que pude, juro. Comecei apostando em uma abordagem plástica: "Bem... Se eu fosse descrever o seu amor em imagens, diria que estava mais para um fio fino de cabelo erguido sobre brisa boa, trazido despretensiosamente ao meu quintal, e agarrado desesperadamente por um galho seco de uma árvore bem velha".  Engraçado, "tão pouca gente a sós com a vertigem", disse Luiza Jorge, e eu aqui fazendo reviver um pranto que se revira em vento. Disse à pequena que separei um caderninho só para imprimir emoções. Sangrei naque...

Uma porção calamitosa de anseio e vontade

Há quem veja as linhas que separam as cores do arco-íris. Há quem ouça a eletricidade passar pelas paredes, quem diga a tonalidade do canto dos pássaros. Há quem sinta tristeza no Sol poente e quem fareje angústia numa composição em sol maior. Eu nunca tive um quê de extraordinário, nesse sentido. Sempre que pude, encarei a realidade com modéstia, nada para além do necessário. Foi uma surpresa para mim encontrar conforto em coisas irreais, há alguns anos.  Não pensei que escreveria sobre isso até noite passada, quando tive um sonho que me fez acordar com os lençóis nas mãos. É raro eu sonhar com dias ensolarados (acho que meu subconsciente é mal iluminado), mas consigo me lembrar da luz do Sol. Era dia quando me vi no segundo andar de uma casa opulenta, em algum condomínio de luxo. Para variar, eu não sabia muito bem o que fazer. Eu só estava lá. Saí pela varanda do que parecia ser o quarto principal, desci alguns degraus em pedra e andei até o fim da rua. A rua era cheia de casas ...

Coisas que existem

Desde pequeno, observo as coisas. Observo coisas que existem e que não existem, coisas que existem só pra mim. Observo também as coisas que não se mexem, as que mudam - algumas, mudam bastante - e as que permanecem as mesmas, mesmo depois de muito tempo; coisas sem cor, coisas sem cheiro e, ainda, coisas que não fazem sentido.  Às vezes, observo pessoas. Observar pessoas é fascinante, mas é complicado. Não raro, me pergunto como algumas pessoas conseguem existir tantas vezes em uma única vida. Como conseguem respirar o mesmo ar todos os dias? E as estradas por onde passam, os horizontes para onde apontam os dedos? Ou será que mudam os ares, mudam os horizontes? Mudam também os interiores das casas e os cheiros sobre o bigode?  Pensar nas pessoas sempre coloca um "s" na minha testa, que contesta, sempre esta, a fulgura do querer. Não sei dizer quais pessoas realmente conheci, ou por onde andam as que conhecerei ainda nesta cidade. Mas não me furto de imaginar... Algum dia, he...

Amantes não-praticantes

Eu sei que você me ama.  Sei que não se esqueceu de nossas risadas, de meus presentes. Sei bem que ainda se lembra da minha voz prometendo te cuidar. Sei bem que ainda confia em mim e que, talvez, até sinta minha falta de vez em quando.  Mas o que fazer?  O que fazer quando amamos com palavras sinceras, mas não agimos em nome do amor? Para qual paraíso vão os amantes não-praticantes ?  Seus dizeres de afeto são para mim, mas não são meus. São prosa compartilhada. A intimidade que partilha comigo flutua à deriva em águas de marasmo e indecisão. Quanto a mim, não passo de um navegador inexperiente, um mancebo estrangeiro que levou à Mãe d'Água o sonho de ser, um dia, capitão.  Por sabedoria ou malícia, ela castigou meu barco com turbulência e condenou meu curso às correntes oceânicas - correntes que me levaram direto para as suas águas. Eu me perdi. Sei que me rasgo pela minha vaidade. Dói em mim que as cartas de navegação de mares tão únicos, outrora guardadas so...