Postagens

Mostrando postagens de abril, 2024

O pacto

O cometa veio. Junto com ele, dúzias de sentimentos. Sobrevivi à luz que ofuscara o brilho das estrelas, correndo o risco de não mais ver o nascer do Sol. Bati a porta e me mantive quieto, não havia mais ninguém ouvindo. Ganhei silêncio. Experimentei um pouco de vazio, um pouco tardio. Por sorte, guardo sempre um lápis no bolso. Confessei, assim, às paredes: Escavei no jardim tuas juras prediletas juras de maldição revirei geiras de terra os recantos do coração terras expatriadas montes de perdição dá-me teu desejo pele, condenação cede o cortejo de um sentimento artesão sofre o lampejo sorve a canção  vê céu aberto  vê com atenção Com as luzes apagadas, fiz sinal para que o espectro numenoso assentasse sua sabedoria em mim. Por três dias e três noites, torturei incansavelmente o fraco encolhido no canto do quarto com rimas longas e heresias. Ao contrário do que acreditam os religiosos, não é preciso mais do que isso. Uma intenção basta. Na manhã de domingo, eu encarei o espel...

Muito pouco

Veja, é muito pouco .  Estive pensando em mim mesmo. Sobre o que penso, pouco sei. Sei que pouco me importam os cantos lamuriosos, as paisagens envelhecidas, retas, mesmo as descobertas, mesmo as vingadas em carne contumaz.  Houve prata e madeira na memória antes entoada nestes portões, mas sobremaneira estimadas.  Por muito pouco, vendera a honra de um sentimento gentil, regado a paciência e carinho em terra arenosa.  Por muito pouco, trocara o acalanto das minhas batidas para ter com outros um afeto desritmado.  Deixou-me só muito antes de decidir ir embora, mas muito pouco importa. Muito importam as listras vermelhas, muito importam as doses de luar. É de suma importância, outra vez, olhar para a Lua e se reconciliar. Saber apontar cada impacto sobre o pó estéril e elegê-las, as marcas, reis e rainhas da História.  Alegrar-se, cantar e acordar.  Mesmo assim, é preciso cautela.  Mesmo assim, ainda é muito pouco.

Nuvem de propósito

Há momentos em que canto alto para tentar espantar a Tristeza, tento mantê-la atrás dos arbustos - não posso perdê-la de vista, ou dar as costas, seria pedir para ser predado novamente.  Lido até bem com a Solidão: basta brandir um bastão de rotina e chamar alguns amigos que ela vai embora.  Quanto à Mania, eu a mantenho sob controle com fino ajuste, mas é duro. Insiste, insiste, mas logo, também, me deixa em paz por um dia ou dois.  Agora, esta, a Ansiedade... é a mais cruel de todas, a mais cruel nesta selva de sentimentos.  Ela enxerga no escuro, fareja minhas inseguranças dentro e fora do abrigo. Faz ventar forte, estremece as janelas e faz tudo ficar um pouco mais frio.  No frio, é difícil discernir entre fora e dentro. É trabalhoso manter-se limpo, manter-se lógico.  Há momentos em que me sinto como uma vela tímida: o pobre fio de vida aceso por muito pouco, uma chama oscilante, quase sumindo, completamente à mercê da primeira brisa que, por ventura, ...

"Gênio forte"

É bem tarde, mas o horário ainda permite.  O grito que ouve vem do meu peito. Na verdade, posso senti-lo vibrar enquanto chama seu nome, sem resposta. A dor falta arrancar um pedaço, mas é boa. É melhor do que o não-sentir.  Passei boa parte da vida não-sentindo, tentando sempre existir só para o que fosse objetivo. Agora, conheço o choro da saudade à pronta entrega.  Tenho você na memória durante todo o dia - por vezes, um pouco apagada, outrora, absurdamente radiante, mas sempre lá.  É das coisas que não fazem sentido, o amor.  Acho que é amor a causa de todos esses sintomas que trago em frio diagnóstico, mas não tenho experiência de caso. Ouvi falar na trova dos poetas, provei da tinta de Cervantes, mas não reconheço forma ou cor.  Em matéria de amor, tenho muito o que aprender, e você segue sendo um teste duríssimo, desses que saímos para beber água de quinze em quinze minutos para esfriar a cabeça. O tempo de prova é incerto, mas acho que é assim pra t...

Caixinha de joias

Não vou negar, gostaria de, outra vez, morrer de amor por você.  Entretanto, não tive tempo ultimamente. Mal tenho tempo para escrever tantas palavras, na verdade.  Por que ainda chamo seu nome quando me sinto sozinho? Por que ainda vejo seu rosto sempre que abro os olhos pela manhã? Mesmo que torne a querer minha voz em seus sonhos, acredito não ter mais tempo para ver passar contigo a chuva e os Gigantes.  Se é tempo de amar, temerosa é a vontade que hoje cultivo em lençóis de linho fino.  Não te esquecerei, pelo contrário. É na caixinha de joias que ainda guardo o que tenho de seu.  Aqui, num cantinho rebelde do meu coração.

Há tempos que não sonho com você

Há tempos que não sonho com você.  Nem íamos para tão distante assim e o caminho era de tráfego livre, três horas da tarde. Meus pensamentos divagavam nos tempos de troca de marcha, você com as mãos no volante.  Eu estava nervoso, inquieto, muito por conta das circunstâncias inscritas, dessas de afeto, de medo. Seria contraproducente tentar esmiuçar o que se passava na minha cabeça, mal consigo me lembrar do sonho completo. Mas éramos nós dois lá.  Eu me lembro do seu rosto, da cor das unhas, do seu vestido. Lembro a feição no seu rosto, as vezes em que sorriu e em que se aquietou.  Lembro que já era céu escuro quando o carro parou. Não sabia por quanto tempo ficaríamos estacionados.  Estávamos de frente para a fachada de uma casa sombria, dessas que inspiram pesadelos. A casa ficou parada durante todo o tempo em que eu encarava seus olhos, e você encarava os meus.  Ali, era de fogo que minh'alma pulsava, brasa que arde, chama que cura. A casa não fez barul...

Às vezes, penso em abraçar a poesia

Às vezes, penso em abraçar a poesia. Vivê-la sem medo, um compromisso inalienável, comer e respirar.  Mas, então, me lembro das artes que me dispus a fazer, e fi-las, todas, com desleixo. Lembro-me de minhas devoções às práticas religiosas de meus pais e de como me parecem tão ingênuas aos olhos de hoje.  Lembro-me, então, das mulheres que amei. E, tão logo, me lembro de você.  Sinceramente, estou cansado. Cansado de manifestar meu eu em todas as mídias, em todos os espectros. Cansado da fumaça, da terra e do leite.  Estou cansado por mim, mas também pelos meus. Pelos que passam fome, pelos que agem sem pensar. Cansado do sublime e da violência.  "Por amor às causas perdidas", por amor às causas pagãs.  À destra de São Patrício, venho declarar que já não cortejo a vida plena como antes.  E um poeta que, diligentemente, não ama a vida põe em xeque a graça de Deus.

Palavras demais

Eu fiquei chateado.  Fiquei chateado com as coisas que disse, mas, principalmente, com as coisas que não disse. Ou que disse de maneira torta. Ou que simulou dizer, mas não falou com a boca.  Falou com os olhos, com a ponta dos dedos.  Fiquei chateado pelos versos doces em forma, mas falsos em substância.  Fiquei chateado com o som e com a coragem, com a mentira e com a virtude dos pensamentos que alienaram uma parte pouco espessa de mim, ainda fábula, ainda virgem.  Chegou ao ponto de me chatear a tua mera presença, carregada de um significado: você não será comigo.  Peço perdão, desde já, pelo sumiço...  É que acho que te dei palavras demais .  Talvez, com o silêncio, você entenda melhor.

Pensei com cuidado

Pensei com cuidado e cheguei a um veredito. Decidi que quero você.  Quero seu aroma, sua voz. Quero seu toque, seu seio, sua atenção.  Quero também o que é seu, quero tudo o que lhe convém conferir. Quero guardá-la em mim, escondê-la da torpe cortesia dos falsos.  Acaso não sabeis, mais do que tudo, quero você aqui.  Quero você apesar de, mesmo com, sempre em, nada além.  Entretanto, mesmo que não possa tê-la, mesmo que não consiga prendê-la, colonizá-la, governá-la ou doutriná-la com meu pecado, quero você acordada.  Quero você lá, desde que seja na plenitude de uma manhã com cheiro de mar. Quero você no alto - mais que os picos que inspiram lendas -, desde que possa ver, daqui, a beleza de suas pontas.  Quero você viva, antes que o Sol roube a visão de cada olhar seu e não reste nada além de calor e sentimento chamuscando as sobrancelhas.  O que quero dizer é que quero você bem. Você é meu bem-querer. 

Noutros litorais

Por que não vais desaguar noutros litorais ?  Por que minhas areias ainda tocam teus pés?  Bastou que a memória enferma de meu semblante batizasse tua consciência para que, novamente, viestes a mim?  Tu, que por mim não choras, nem transborda, nem seca, nem permanece?  Há de beber da fonte que mantém teu vale rico, de provar do fruto que cresce na aridez dos teus próprios cabelos.  Serei paraíso dourado às águas que aqui vêm banhar os corais e os rochedos.  É fim de tarde, e nosso amor recua a passos de maré.